quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Liberté

10 Comentários



“Na minha época era bem diferente”, escuto da minha avó. “Esse mundo não tem mais jeito”, diz o senso comum. “O futuro não é mais como era antigamente”, cantava Renato Russo. 
Há quem diga que o frenesi (além a solidão) é o mal do século. Há quem tome como base as transformações societárias. E há quem junte tudo isso e um pouco mais e só viva de gastar palavras pra resmungar sem sair do sofá. 
Não nego os pesares, as injustiças, as desigualdades que acometem nosso tempo. Mas também não deixo de olhar as coisas com o olhar de esperança. De quem acredita. De quem  se admira com os detalhes. De quem sonha com um mundo melhor. 
Quer saber de duas coisas que me encantam? A fala das crianças e as pipas no céu. Simples, não? Pra mim são especiais. 
Impossível não se encantar com a inocência destilada em cinco minutos de prosa com um pequeno. Suas visões e observações inusitadas, suas surpresas. A pureza que habitam faz tudo ficar mais bonito, mais feliz. 
Assim também é com as pipas, hoje tão raras por aí. Suas cores, sua leveza despretensiosa, sua dança. Ver uma pipa voando no céu me atiça a liberdade, me atiça uma espécie de alegria que só a beleza das minúcias é capaz de proporcionar. 
O engraçado é que um dia desses, estes meus dois exemplos se encontraram e me arrancaram sorrisos inevitáveis. Distraída e apressada saindo de casa, observei duas crianças brincando na rua. Os dois meninos de aproximadamente oito anos de idade olhavam pro céu e conversavam. E eis que um diz suspirando:

“Poxa…a gente podia voar, sabia?” 
E o outro concorda: “É mesmo! Se eu voasse ia pegar todas aquelas pipas quando elas começassem a cair do céu”. 
Sorri sozinha. E os meninos logo iniciaram outro assunto deliciosamente cabível em suas férteis imaginações. Sem saber que seus desejos, ainda que não pudessem ser realizados, me serviriam de inspiração pra esta crônica. 
Lembro que quando li o livro “Mulheres de Cabul” de Harriet Logan fiquei tocada com o texto que ainda na contra-capa traduzia a realidades daquele povo:  “é proibido ouvir música, é proibido levantar pipas…” E mesmo familiarizada ao assunto, a privação de liberdade tão polêmica e manjada ainda parecia impressionar. 
Eu ainda não sei se tem razão a minha avó, o Renato Russo ou a maioria de nós. Na verdade tenho medo de que todos estejam corretos. 
Mas acreditando que é de fé e ousadia que se faz o avesso dos sonhos impossíveis, penso que enquanto houver vontade de liberdade no coração, pipas no céu e crianças que ainda não perderam sua capacidade de sonhar, haverá esperança no mundo.

10 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Que texto mais lindo! Crianças realmente são a luz do mundo e as pipas... são as estrelas ;-)

    Beijos

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  3. oi minha linda

    sdd.

    O importante nesta vida é sonhar.

    bjokas =)

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  4. Concordo com sua avó e com Renato Russo, realmente os tempos são diferentes. Mas diferente é ruim?
    As pessoas tem medo do diferente, ele tráz insegurança... Pra mim, tráz justamente esperança... Se os tempos não são os mesmos, se o futuro não é mais como antigamente, isso é bom, porque quer dizer que o futuro pode ser mudado, pode ser melhorado.
    Sim, enquanto crianças conversarem sobre voar e salvar o mundo, ele realmente pode ser salvo, acredito piamente.
    Amei o texto, como sempre. :)
    Super beijo!

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  5. Yohana,

    lindo o que tu escreveste ai, lindo mesmo, eu tmb me impressiono e admiro com as mais simples coisas que existem, e o real de sentir é isso.
    Sobre as coisas estarem mudando, evoluindo, seja só uma questão de mudança mesmo, talvez não pra ruim, nem pra bom, apenas mudando.

    Beijo querida e um feliz dia das crianças.

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  6. Sonhar mais um sonho impossivel, lutar quando é fácil ceder... voar num limite improvável...
    "Um Sonho Impossivel"
    Chico Buarque!

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    1. Oi! Tentei retribuir a visita mas não consegui acessar seu blog. Agradeço pela spalavras e desejo que venha sempre! bjs

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