quinta-feira, 9 de junho de 2011

Hóspede.

19 Comentários



Nasce tímida, discreta, quase invisível. Brisa leve que acalenta o rosto no repouso sobre a janela. Se anuncia afável, inofensiva e com o tempo se revela: dominadora nata.  
Aparenta trazer o bem, ser leve, natural. Mas sagaz, quase sempre trapaceia com seus anfitriões. 
Sorrateira. Com toda a roupagem de quem só vem pra provar que algo valeu a pena, denota na verdade, o avesso de suas justificativas. Inquieta, insistente, encoraja absurdos. Desvia focos, arrebata certezas, desarma as estruturas de seu alvo. Batalha pistas, descobre desvios, arrisca atalhos, avança territórios e chega lá. Toma conta de espaços não cedidos e pouco a pouco entrega seu jogo: de breve, passa a moradora, veio pra ficar.

Tem ares de metamorfose a sensação desabrochante e transformadora de suas aparições. Inflamáveis e urgentes suas manifestações inesperadas.  Surpreendente como presente fora de data, constrangedora como arriscar advinhar o conteúdo pela embalagem e descobrir-se errado. Agrega músicas, fotografias e frases como cúmplices.  
Caminha de mãos dadas com a nostalgia. Aliada da melancolia, inspiração dos grandes poetas, tipo fácil das belas melodias. Amiga íntima do aperto no peito.
 Borboleta. Que se instala no corpo inteiro, não apenas no estômago como o habitual. Vistosa e incansável. Vaga por espaços impensáveis. Ronda por capricho um campo de sentimentos já obsoletos, reaflorando desejos abandonados. Seu objetivo? Inquietá-los, cobrar-lhes qualquer atitude que legitime sua razão de ser. 
De aparência leve e supostamente símbolo da liberdade, na verdade, nos tira o ar, devasta nosso jardim e deixa algumas pétalas na porta para também se fazer recordável, a opressora. Saudade, a hóspede non grata.
Sentimento nenhum é tão carente e inoportuno. Alimentada pela lembrança, motivada pela ausência. Seu show: se fazer presente, realizar revanches. Chega a ser bem intencionada, mas iludida de que meios justificam fins, só faz machucar a saudade. Palavra de origem misteriosa, de tradução desafiadora. Desconhecida em tantos idiomas e de emoções contraditoriamente íntimas de todos os cantos e prantos do mundo inteiro. 
Reclama-se de sua permanência, pede-se sua renúncia, clama-se por tréguas mas nada a detém. Nada impede que a tal venha e faça seu carnaval. Com sorte, com muita sorte, consegue-se que seja apenas uma visita inconveniente. Breve, de raros retornos. No entanto, o que se constata é que, de praxe, a tal chega com grande bagagem e sem avisar, toma conta de sua sala, do seu quarto, de seus pertences e pensamento.
 Matá-la, o único jeito radical e compensador de encontrar a paz.  O golpe, meus caros, deverá ser certeiro pra fazer valer toda a espera. Pois enquanto se fomenta o fim,  de tanto querer, de tanto precisar, de tanto tentar eliminar a bendita, cumpre-se por dilacerar aquele que ingenuamente a acolheu. Pobre hospedeiro, vítima da saudade, o coração. 

19 comentários:

  1. Ai meu Deus Yohana! Nem sei por onde começar. Seus textos sempre no meu toplist dos mais lindos.!
    Essa saudade doída,insistentemente faz o possível para desorientar o pobre coração.
    Saudade de tantas coisas que bateu aqui agora. *-*
    A pior é aquela que você sabe que não dá pra matar, permanente. A saudade da minha avó, por exemplo. ;(

    Ah, perfeito. Maravilhoso.
    Gostei muito mesmo.

    um grande beijo, sua linda.

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  2. A cada texto você nos surpreende mais e mais!.. Fantástico Yohana!

    Beijocas super em seu coração..
    Verinha

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  3. Nos leva a viagens mágicas através da palavras, Yohana! Bela construção textual! Surpreendente!
    Bjo, querida.

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  4. Sério, foi o melhor text que você já fez! #FATO

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  5. Tô vendo algo batendo asas, haha!

    Tu é bonita Yô, bonita como uma borboleta tem q ser.

    Saudade de tuuu!

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  6. Yo

    Deus abençoe cada vez mais esse seu dom de escrita.

    bjokas =)

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  7. Oi Flor... texto maravilhoso... Amei!
    Otimo fim de semana...
    Beijos e se cuida ^^

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  8. "Sentimento nenhum é tão carente e inoportuno. Alimentada pela lembrança, motivada pela ausência."
    Impossível vir aqui e não me encantar.
    Deus abençoe seu dom de tocar corações através de palavras!!
    Beijos

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  9. Lembrei dessa :

    "Por tanto amor, por tanta emoção
    A vida me fez assim
    Doce ou atroz, manso ou feroz
    Eu, caçador de mim"


    Um beijo.

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  10. Que texto maravilhoso!!!
    Obrigada por sua visita e pelo comentário!!!
    Que você tenha uma ótima semana.
    Beijossss

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  11. Só você mesmo, Yohana, para escrever um texto tão lindo e cheio de sentimentos sobre coisas que passam pelos olhos de outros como que corriqueiras... nem um pouco corriqueira, tem tudo isso que você falou... Nunca mais vou olhar com os mesmos olhos para uma borboleta. :) Adorei!
    Beijinhos!

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  12. Tu e o seu dom de me deixar sem palavras, de me fazer viajar nos seus textos.
    Ah saudades e coisas banais, de coisas importantes, de coisas que não voltam mais.

    Nem sei o que dizer além de que o texto esta maravilhoso!

    Beijos

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  13. fantástico o texto; e o blog, inclusive.
    vou seguir aqui =]

    um brinde às palavras bem conjugadas.

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  14. Quanta musicalidade nessas palavras, Yohana. Fico encantada a cada post que tenho o privilégio de ler. Você tem o mais lindo dos dons; encantar com essa inspiração fantástica.
    Beijos!

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  15. "de tanto querer, de tanto precisar, de tanto tentar eliminar a bendita, cumpre-se por dilacerar aquele que ingenuamente a acolheu. Pobre hospedeiro, vítima da saudade, o coração. "

    Lindo, lindo, lindo!
    Cada vez mais fã! *-*

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  16. Ah para moça, please! Me encanta demais todo esse seu dom, essa força tão bonita de se expressar. Ah e a saudade, quem já não sofreu em suas mãos? Tão belo guria, só te parabenizo. Beijões.

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  17. fantásticooo meeeninaa.
    *___*
    eu ia lendo cada linha parecendo uma detetive tentando descobrir quem é a hóspede non grata. rtsrsrs
    sério mesmo adorei esse texto.
    E no final a dica do golpe certeiro foi incrível.
    Acho que sempre esquecemos desta parte e sempre acertamos direto no pobre hóspede, que cansado já anda de tanta saudade.
    beijos.

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  18. Olá
    Antes de mais ...parabéns pelo blogue ! :)

    Gostaríamos muito que desse uma vista de olhos no projecto DVB- Digital Video Book ,de saber a sua opinião e qual o interesse em desenvolver o seu trabalho neste novo formato.

    "Transformamos" os seus trabalhos (já editados em livro, ou não), num DVB- uma ideia original da Pastelaria Studios Productions

    O projecto é recente, é uma inovação, tal como explicamos no nosso blogue:

    http://pastelariaestudios.blogspot.com/


    É exactamente isso! os seus poemas seriam " trabalhados " em DVB . Um livro que se vê como um filme!


    Não se trata do mesmo funcionamento de uma editora "normal", pois não somos uma editora e prestamos essencialmente um serviço criativo.

    A minha sugestão seria, enviar-nos a sua obra, e nós faremos uma análise e um orçamento de custos.

    Posso adiantar que, por ser um projecto novo e, embora o trabalho criativo (audio, voz, imagem, construção do DVB, etc) seja bastante, queremos chegar ao maior número de autores de obras escritas, mesmo que essas estejam ainda na 'gaveta' ...



    Fico a aguardar uma resposta e, qualquer dúvida ...estamos por aqui.

    Um abraço,

    pastelariaestudios@gmail.com

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